sábado, 2 de dezembro de 2017

Ira é pecado ou esperado...?



Tem se falado por aí sobre a IRA! Mas o próprio Deus também se IRA!!!! Com o MAL...!!! Com a INJUSTIÇA...!!!

Quantos homens, afinal, têm-se levantado para defender mulheres ao invés de serem os próprios agentes do diabo...?!!! Quantos homens na igreja, na família e na sociedade têm sido HOMENS de verdade, no sentido pleno da palavra, e se levantado verdadeiramente contra o MAL...?!!! Contra a INJUSTIÇA...?!!!

Eles pensam, mas SÓ PENSAM, que estão fazendo a coisa certa... Mas a verdade é que a maioria não tem nem inteligência, nem experiência, nem maturidade, nem espiritualidade, nem informação e nem conhecimento da Verdade suficientes,  pra fazer isso...!!!!

Falam de boca cheia, que o cristão deve perdoar (como já vi um ancião machista e safado fazer) sendo que a hora não era hora de julgamento, mas de justiça... Aí, anos depois, o tal, já um formado pastor, presencia uma cena de injustiça e descaramento e resolve agir... Pede perdão por suas muitas atitudes antigas, não somente esta, mas todas as outras, implícitas, à própria vítima... Só que com um lindo sorriso no rosto...!!! Como se todas elas não tivessem tido graves consequências e como se ele não compreendesse o alcance maligno dessas atitudes...!!! Aí no dia dessa cena, parece agir poderosamente por Deus... Mas no final, aceita suborninho de presentinho do abusador da vítima...???!!! Hã...???!!! E acha que deve ser considerado pela mesma, como um amigo...??!!! Presenciou o demônio agir diabolicamente (Frase acertadamente usada por ele...), só que no dia seguinte continua amiguinho do abusador como se nada tivesse acontecido...??!!!

Já vi amigos (anciãos, por sinal...) se abraçarem na frente da igreja num apelo, e rirem sutil e debochadamente da cara de certa pessoa, se acobertando num gesto “lindo” de amizade... Canalha...??!! (Hã...??!!!) Como se não fossem os responsáveis, escolhidos pela própria igreja, para serem os instrumentos de Cristo na vida dos membros ali...??!!

Já vi um pastor (titular...) provavelmente mais conhecedor do que o resto dos membros ali, de certa realidade de um membro de sua própria igreja, agir covardemente... Ao invés de ter inteligência e hombridade suficientes para executar o seu próprio ofício dignamente, até pela própria vantagem informativa e... Formativa...? (o cidadão parece que fazia um certo curso... Na PUC...???!!! Hã...??!!!)

E esses caras... Pastores... Que sobem lá no púlpito... Pregam e falam muitissimamente bem... Têm o dom da oratória... Sabem escrever... Entendem e gostam de música e poesia... Conhecem melhor do que muitos outros, a Verdade, porque são talentosos... Mas parece que não conhecem também, que existe uma coisa chamada IRA DIVINA...!!! Se não Deus não destruiria ninguém, sem consideração às suas infinitamente amadas criaturas... E deixaria abusadores, perseguidores, conviverem juntamente com os justos, no céu... Ou seja, o mal nunca acabaria... Parece que não entendem, não compreendem, que anos, décadas, de sofrimento, podem produzir uma carga emocional TÃO violenta, mas TÃO desumanamente enraizada e enlouquecedora, que é impossível, esperar dessas pessoas, que não sintam IRA!!!! Que é impossível esperarem que se fale de amor, quando não foi isso o que se foi experimentado por muito tempo...!!! E justamente pelos possuidores da... VERDADE...??!!! (Hã...??!!!)

Acho que só me resta mesmo, orar, mas orar muito e fervorosamente, pra que Deus, nos vingue verdadeiramente... Pra que Ele faça com que tais pessoas e todas as outras generalizadamente caracterizadas aqui, sejam acometidas das MESMAS injustiças, das MESMAS perseguições, das MESMAS enlouquecedoras doenças, que as suas vítimas, ou membras, ou ovelhas, ou colegas de grande conflito...

Que Deus nos vingue...!!!



“O Senhor é Deus zeloso e vingador; 

o Senhor é vingador e cheio de furor; 

o Senhor toma vingança contra os seus adversários, 

e guarda a ira contra os seus inimigos.

O Senhor é tardio em irar-se, mas grande em poder, 

e ao culpado não tem por inocente...” 

Naum 1:2,3



Rosely T. Sales

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Existe “ideologia de gênero”?


(Foto: Jimena Furlani/Reprodução)

Em entrevista pública, a doutora em educação Jimena Furlani, que desenvolveu extensa pesquisa sobre o assunto, explica os equívocos do conceito.

O debate sobre a inclusão dos temas de gênero e sexualidade nos planos de educação (nacional, estaduais e municipais) foi um dos principais fatores de ascensão do Escola Sem Partido, como admite seu fundador Miguel Nagib: “A tentativa do MEC e de grupos ativistas de introduzir a chamada ‘ideologia de gênero’ nos planos nacional, estaduais e municipais de educação ‒ o que ocorreu, principalmente, no primeiro semestre de 2014 e ao longo de 2015 ‒ acabou despertando a atenção e a preocupação de muitos pais para aquilo que está sendo ensinado nas escolas em matéria de valores morais, sobretudo no campo da sexualidade”, disse o procurador em entrevista a Pública (a reportagem pode ser lida aqui). Para quem não se lembra, a bancada evangélica, senadores, deputados estaduais e vereadores evangélicos, católicos e conservadores conseguiram, após campanha fervorosa, vetar o termo “gênero” do Plano Nacional de Educação (PNE) e, então, dos planos estaduais e municipais de educação de todo o país. Na época, era possível encontrar militantes pró-vida gritando “não ao gênero” diante de assembleias legislativas e pastores televisivos como Silas Malafaia, o deputado do PSC Marco Feliciano, o deputado do PP Jair Bolsonaro e o senador Magno Malta do PR bradando contra a “ideologia de gênero”, que traria a destruição da família e a doutrinação de crianças. A CNBB, na época, também divulgou nota afirmando que a ideologia de gênero “desconstrói o conceito de família, que tem seu fundamento na união estável entre homem e mulher”. Nas missas e cultos, cartilhas foram distribuídas alertando pais e mães sobre o perigo silencioso que rondava suas casas – seus filhos seriam doutrinados a virar “outra coisa” que contrariasse seu sexo biológico. Mas o curioso é que “ideologia de gênero” não aparece nenhuma vez nos planos de educação ou nos estudos de gênero, e o termo nunca foi usado pelas ciências humanas. O texto vetado colocava como meta “a superação de desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual”. Intrigada com isso, a professora doutora Jimena Furlani, da Universidade do Estado de Santa Catarina, que atua na formação de educadores e profissionais da saúde e segurança pública para as questões de gênero, sexualidade e direitos humanos, desenvolveu uma extensa pesquisa, que publicou em uma série de vídeos (que você pode ver aqui). Em entrevista à Pública, ela conta que se espantou ao de repente “acordar ideóloga de gênero e doutrinadora de crianças” e por isso começou essa investigação. Leia a entrevista:

O que é “ideologia de gênero”, afinal? De onde ela surgiu?
A ideologia de gênero é um termo que apareceu nas discussões sobre os Planos de Educação, nos últimos dois anos, e tem sido apresentado a nós como algo muito ruim, que visa destruir as famílias. Trata-se de uma narrativa criada no interior de uma parte conservadora da Igreja Católica e no movimento pró-vida e pró-família que, no Brasil, parece estar centralizado num site chamado Observatório Interamericano de Biopolítica. Em 2015 especialmente, algumas pessoas se empenharam em se posicionar contra a “ideologia de gênero”, divulgando vídeos em suas redes sociais: o senador pastor Magno Malta, o deputado Jair Bolsonaro, o deputado pastor Marco Feliciano, o pastor Silas Malafaia, a pastora Damares Alves, a pastora Marisa Lobo. Meus estudos mostraram que o termo é usado em 1998, em uma Conferência Episcopal da Igreja Católica realizada no Peru, cujo tema foi “A ideologia de gênero – seus perigos e alcances”. Parece que seus criadores se baseiam em dois livros para compor essa narrativa chamada “ideologia de gênero”: primeiro, no livro de Dale O’Leary intitulado Agenda de gênero, de 1996. O’Leary é uma militante pró-vida que participou das Conferências da ONU (do Cairo em 1994 e de Pequim em 1995) como delegada. Ela faz um relato dessas conferências, descreve, sob o seu ponto de vista, a ação das feministas em apresentar o conceito gênero e como, a partir dali, a ONU assume a chamada perspectiva de gênero para as políticas públicas sobre os direitos das mulheres. O outro referencial usado na construção dessa narrativa é o livro de Jorge Scala, cuja primeira edição é intitulada Ideologia de gênero: o gênero como ferramenta de poder, de 2010, que no Brasil, curiosamente, é intitulado Ideologia de gênero – o neototalitarismo e a morte da família, de 2015. O autor é um advogado argentino, conhecido defensor de causas antiaborto e contra os direitos das mulheres, membro do movimento pró-vida, que apresenta uma série de interpretações dos estudos de gênero, extremamente problemáticas e convenientemente articuladas para desqualificar tais estudos e apresentá-los como danosos para a sociedade. Portanto, parecem ser esses os principais referenciais usados na criação da narrativa chamada “ideologia de gênero”, que nos últimos dois anos vem sendo divulgados e exaustivamente repetidos em vídeos, textos, cartilhas, documentos da CNBB, palestras etc. Uma retórica que afirma haver uma conspiração mundial entre ONU, União Europeia, governos de esquerda, movimentos feminista e LGBT para “destruir a família”, mas que, em última análise, objetiva, sim, propagar um pânico social e voltar as pessoas contra aos estudos de gênero e contra todas as políticas públicas voltadas para as mulheres e a população LGBT, sobretudo nas questões relacionadas aos chamados novos direitos humanos, por exemplo, no uso do nome social, no direito à identidade de gênero, na livre orientação sexual.
E qual a diferença entre ideologia de gênero e estudos de gênero?
Primeiro, entender que todos nós seres humanos possuímos um sexo e um gênero. Enquanto o “sexo” é o conjunto dos nossos atributos biológicos, anatômicos, físicos e corporais que nos definem menino/homem ou menina/mulher, o gênero é tudo aquilo que a sociedade e a cultura esperam e projetam, em matéria de comportamento, oportunidades, capacidades etc. para o menino e para a menina. O conceito gênero só surgiu porque se tornou necessário mostrar que muitas das desigualdades às quais as mulheres eram e são submetidas, na vida social, são decorrentes da crença de que nossa biologia nos faz pessoas inferiores, incapazes e merecedoras de menos direitos. O conceito gênero buscou não negar o fato de que possuímos uma biologia, mas afirmar que ela não deve definir nosso destino social. Originalmente, as reflexões acerca da influência da sociedade e da cultura, no conjunto das definições que nos dizem o que é “ser homem” e o que é “ser mulher”, se iniciaram nas ciências sociais e humanas, como sociologia, história, filosofia e antropologia, mas, hoje, os estudos de gênero se constituem num campo multidisciplinar, composto por várias abordagens e presentes em todas as ciências – nas naturais, nas exatas, nas jurídicas, nas da saúde, nas da comunicação, do esporte etc. Hoje os estudos de gênero se aproximam também das discussões com outras identidades, como raça-etnia, classe social, religião, nacionalidade, condição física, orientação sexual etc., sendo, por isso, chamados de estudos de interseccionalidade. O conceito gênero permite, ainda, explicar os sujeitos LGBT, especialmente os sujeito trans, na medida em que discutem, por exemplo, a identidade de gênero e o uso do nome social. Portanto, a perspectiva de gênero está na base dos novos direitos humanos e na justificativa das políticas de amparo às mulheres que repercute nas discussões acerca do conceito de vida e das leis sobre direitos sexuais e reprodutivos, e aborto e à população LGBT. Sem dúvida, se considerarmos que o conceito gênero permite as discussões acerca da posição da mulher na sociedade, da aceitação dos novos arranjos familiares, das novas conjugalidades nos relacionamentos afetivos, ampliação da forma de ver os sujeitos da pós-modernidade e no reconhecimento da chamada diversidade sexual e de gênero, então, não há campo do conhecimento contemporâneo mais impactante e perturbador para as instituições conservadoras e tradicionais que os efeitos reflexivos dos estudos de gênero. Isso nos faz entender porque o empenho tão enfático, persistente e até, em algumas situações, antiético das instituições que criaram e divulgaram essa narrativa denominada “ideologia de gênero”. Na minha opinião, há usos distintos da chamada “ideologia de gênero”. Parece que, no âmbito da cúpula da Igreja Católica, trata-se de uma questão dogmática e relacionada aos valores da ideologia judaico-cristã, que, segundo seus representantes, estariam sendo ameaçados pelo conceito gênero por causa das mudanças no comportamento das mulheres e nas leis sobre aborto, por exemplo, da aceitação das várias famílias e do reconhecimento dos direitos da população LGBT. Outro uso vem de representantes evangélicos: embora existam aqueles católicos que se aproveitam eleitoralmente dessa narrativa, usar a “ideologia de gênero” e sua suposta “ameaça” às crianças e à família tem sido mais presente em candidatos evangélicos – vide a chamada bancada cristã, que não apenas no Congresso Nacional, mas em todos os legislativos do país, deve aumentar, nas próximas eleições, à custa de campanhas cujo foco de “convencimento” deverá ser combater a ideologia de gênero.
E são os evangélicos que mais combatem a ideologia de gênero no Congresso…
Muitos pastores, em 2015, lançaram vídeos falando a respeito da ideologia de gênero, “explicando sua ameaça” às crianças e às famílias, com argumentos, visivelmente idênticos, em falas que não diferiam muito e confundiam e alarmavam mais do que explicavam o conceito gênero. Diziam coisas como: “Segundo a ideologia de gênero, você não vai mais poder dizer que é menina ou menino; a escola vai te doutrinar dessa forma. Tudo isso porque querem destruir sua família”. Dando continuidade à explicação, afirmavam: “Eles (os perversos ideólogos de gênero) querem negar nossa biologia”! Esse argumento da negação da biologia não é apenas absurdamente equivocado em relação aos estudos de gênero, mas constitui-se num ato deliberado de má-fé – uma desonestidade intelectual daqueles que criaram e divulgam a ideologia de gênero no Brasil. Os estudos de gênero não negam a biologia por um motivo muito simples: é preciso que ela exista para que possamos dizer que gênero é tudo o que não é biológico, ou seja, gênero difere da biologia, gênero é um conceito da sociedade e da cultura, gênero é, exatamente, o contrário. Não faz nenhum sentido dizer que os estudos de gênero negam a biologia; os estudos de gênero discordam é do determinismo biológico – quando a biologia é utilizada pra definir nosso destino social. Tenho que admitir que a construção dessa estratégia foi muito inteligente! Destaca-se o brilhantismo em construir uma narrativa, suficientemente ameaçadora para sociedade, na medida em que ela se volta para a criança e a família no seu intuito destruidor. Não há nada que mobilize mais as pessoas, principalmente pais e mães, do que alardear que “algo” ameaça suas crianças e que há um complô mundial para destruir sua família.
Se a ideologia de gênero foi um projeto do PT, quer dizer que, com a saída do PT do governo, ela não existe mais?
Palavras como gênero, identidade de gênero, orientação sexual e educação sexual foram excluídas dos planos nacional, estaduais e municipais de educação. O suposto pernicioso governo federal, o partido político e suas políticas de educação foram igualmente banidos do poder e do MEC. Para conter os revolucionários professores, especialmente aqueles que possuem sensibilização com o respeito às diferenças e discutem as formas de preconceito no cotidiano escolar, busca-se aprovar o projeto Escola Sem Partido – aliás, excelente aliado daqueles que criaram e divulgam a existência da ideologia de gênero. Se o governo do PT que criou a ideologia de gênero não está mais no poder, se tudo está sob controle e as políticas de educação do MEC, os livros didáticos e a formação de professores não mais conterão a perspectiva de gênero, então, por que é preciso manter vivo esse monstro? Por que pastores continuam dizendo em seus vídeos, missas, cultos que irão combater a ideologia de gênero? Primeiro, para manter a assustadora narrativa ideologia de gênero. Segundo, para apresentar-se como paladino da justiça, como aquele que vai combater e defender as criancinhas e a família brasileira da ideologia de gênero. Terceiro, para assim pedir o voto e se eleger. Quarto, para, ao ser eleito, impedir ou fazer retroceder conquistas, nas leis, para mulheres, a população LGBT e o reconhecimento das religiões de matrizes africanas; e, quinto, para aprovar leis como o Estatuto da Família, alterar a Constituição Federal, instituir uma teocracia cristã no Brasil. Sim, estou bem pessimista. A ideologia de gênero se tornou um excelente cabo eleitoral, e não há nenhum interesse em mostrar para as famílias, pais e mães, que não há nenhuma ação concreta que busque a destruição da família e que ninguém na escola vai dizer que um menino não é menino ou que uma menina não é menina.
E tudo vem no mesmo pacote, né? O Estatuto da Família, a proibição da discussão de gênero. O Escola Sem Partido também vem junto nesse projeto?
Uma análise que podemos fazer é entender que o tempo presente reuniu, conforme a expressão de Michel Foucault, “condições de possibilidades históricas” para que esse movimento conservador tivesse tanta projeção no Brasil. O senhor Miguel Nagib cria o Escola Sem Partido no ano de 2004 e, praticamente por dez anos, não houve uma projeção nacional de seu movimento. Nos últimos anos, o descontentamento com o governo federal, somado à convergência de inúmeras críticas e análise conjunturais, em vários campos, como economia, política e educação, favoreceu o surgimento e a união de forças conservadoras e tradicionais contra as políticas de igualdade, respeito às diferenças, direitos humanos e políticas afirmativas. Penso que a questão é muito mais complexa do que parece. Poderíamos, inclusive, polarizá-la entre a discussão de distintos projetos de governo e de visões de mundo: de um lado, os de direita e, de outro lado, os de esquerda. Precisamos falar sobre isso!
O que significa, na prática, tirar a discussão de gênero dos documentos oficiais?
Nas discussões e aprovações dos Planos de Educação ficou evidente que combater a “ideologia de gênero” significava retirar de qualquer documento as palavras gênero, orientação sexual, diversidade sexual, nome social e educação sexual. Mesmo que as palavras, nas frases, não implicassem nenhuma ameaça objetiva, evitar que as palavras fossem visibilizadas na lei certamente dificultaria aqueles que pretendessem trabalhar esses temas na educação, e, sem muitos argumentos, as palavras foram excluídas. No entanto, é preciso lembrar que retirar essas palavras da lei não elimina os sujeitos da diversidade sexual e de gênero do interior da escola brasileira e de todas as sociedades humanas. Crianças e jovens, assim como professores, pais e mães, possuem suas identidades de gênero, são sujeitos de afetos e convivem num mundo diverso. Aliás, não é a existência do conceito de gênero que “fez surgir” na humanidade pessoas homossexuais, travestis, lésbicas, transgêneros, transexuais ou bissexuais, por exemplo. Os estudos de gênero existem para estudar esses sujeitos, compreender a expressão de suas identidades, propor conceitos e teorias para sua existência e ajudar a construir um mundo onde todos/as se respeitem. Da mesma forma, não foi a existência do conceito gênero que “transformou” as mulheres em contestadoras. A condição histórica e material, de subordinação e de sofrimento existencial, das mulheres, em todas as culturas, é que as impulsionou e impulsiona a lutar pelas mudanças sociais que lhes garantam uma cidadania mais plena. O conceito de gênero pode ser banido do planeta, que mesmo assim a humanidade continuará se expressando em sua diversidade e buscando direitos humanos para todos.
E nessa briga vale tudo, né? Inventar cartilhas falsas, falar que é contra “gênero” sem nem saber do que realmente se trata…
As cartilhas foram apócrifas e anônimas. Eu fiz um documento-análise e no primeiro eu disse que ninguém sabia quem era, não tinha data nem gráfica. No inicio deste ano, eu descobri em um vídeo do professor Felipe Nery que a cartilha foi elaborada no Observatório Interamericano de Biopolítica. Você não tem na historia alguém que cria uma teoria e não assume essa teoria. E, pior, transfere essa teoria para os outros. Quando começou essa história de “ideologia de gênero”, eu acordei, de um dia para o outro, ideóloga de gênero, doutrinadora de crianças. Isso me motivou a iniciar pesquisas para entender de onde veio isso. Eu sempre falo que todo mundo já ouviu falar que os seres vivos se modificam ao longo do tempo num processo que se chama evolução e que transmitem isso aos mais aptos, e eu vou perguntar quem disse isso e as pessoas vão me responder Charles Darwin, e quem concorda com isso é chamado darwinista. Agora, a ideologia de gênero eles não assumiram que inventaram. A gente que tem que descobrir e contar para as pessoas que isso não existe nos estudos de gênero, que é uma interpretação propositalmente construída de forma negativa. As cartas não estão na mesa, eles não assumem que ninguém está doutrinando crianças na escola, que eles querem que não se fale de gênero na escola para que as crianças não acolham os sujeitos da diversidade, para que não aceitem que as pessoas possam ser vistas definitivamente sem preconceito. Que eles não aceitam os direitos humanos ampliados. Tem um vídeo que, ao mostrar um casal de transexuais, vem um comentário de que se trata de uma aberração humana, já que Deus criou o homem e a mulher. A gente conclui dele que eles são contra o conceito gênero porque Deus não criou travesti, transexual, transgênero, e, por isso, essas pessoas não merecem ter direitos.
E as pessoas são enganadas nessa confusão.
É claro que eles não acham que vão estar garantidos só com a confusão teórica que fazem. Eles condenam uma série de palavras que dizem fazer parte do pacote de ideologia de gênero para doutrinação das crianças e destruição das famílias. Eles condenam as palavras diversidade, homofobia, perspectiva de gênero, identidade de gênero, tudo que a gente tem utilizado para que as pessoas entendam a discussão dos direitos e da diversidade. E aí a pergunta é: “Qual é a proposta de acolhimento de vocês pra esses sujeitos, então? Ou querem fazer como aquele candidato à Presidência da República e mandar todo mundo para uma ilha?”. Eles querem que essas pessoas sumam, mas não assumem isso. O Escola Sem Partido ajuda a manter esse discurso de proibição da discussão e de segregação e, por isso, recebeu atenção.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Pedido de oração!


Senhor... Deus... Pai...

Age em favor das mulheres da Sua igreja... Aquelas a quem o inimigo vem tentando destruir desde o ventre materno e que têm missões especiais no meio e fora do Seu povo... Aquelas a quem os próprios pais, usados pelo inimigo, procuraram silenciar a todo custo, por causa de seus próprios pecados de consequências devastadoras, cujas mentiras enganaram a muitos... Cujas mentiras, por serem encenadas justamente pelos escolhidos para serem os guardiões dessas filhas e representantes da Tua face de amor, acabaram por manipular o mundo à sua volta e fizeram muitos acreditar num teatro... Age em favor dessas mulheres, que tiveram pais fracos e abusivos... Para que a verdade prevaleça!!! Para que a verdade guardada dentro dessas mulheres especiais, seja revelada no tempo certo... Para que a enorme revolta e todos os traumas agonizantes, aflitivos, corrosivos e destrutivos, sejam expulsos antes que seja tarde demais... Para que elas tenham verdadeira paz... E de alguma forma milagrosa, sejam capazes de perdoar o mal humanamente imperdoável desses pais...

Age em favor das mulheres da Sua igreja... Aquelas que por causa de problemas familiares ou outros problemas diversos, se entregaram a homens que não souberam valorizá-las, cuidá-las e protegê-las... Que não souberam amá-las verdadeiramente e enxergar o ouro precioso escondido por trás de seus traumas familiares, por trás de seus problemas, por trás de suas incapacidades, por trás de suas doenças ou por trás de suas inseguranças... Aquelas que se entregaram a homens que não souberam valorizar os seus talentos... Que não souberam cuidar de suas dores... Que usaram de abuso físico, emocional, financeiro e até espiritual com objetivos egoístas e malignos... Que roubaram seus dias; sua juventude ou a vida inteira... Fazendo-as chorar, ao invés de sorrir... Fazendo-as duvidarem de si mesmas, ao invés de se sentirem confiantes... Fazendo-as isolar-se, ao invés de saírem para a vida... Fazendo-as ter medo, ao invés de imbuir-lhes coragem... Fazendo-as morrer para a vida, ao invés de sonharem...

Age em favor das mulheres da Sua igreja... Aquelas a quem a Tua própria igreja, que Você mesmo instituiu, acabou perseguindo ao invés de acolher, proteger e amar... Aquelas a quem o inimigo perseguiu através de anciãs, anciãos, pastores, líderes, jovens ou membros, que usaram de seus privilégios, prerrogativas ou poderes para oprimir... Aquelas a quem tais pessoas silenciaram a voz, quando deveriam ter ouvido com respeito e amor... Aquelas que foram ouvidas, mas que através de manipulação espiritual, através da manipulação da Tua própria Palavra, a Bíblia, acabaram acusando sem ter base, nem conhecimento profundo, de suas próprias dores... Aquelas a quem homens, representantes do sexo masculino, membros dessa mesma igreja, acabaram por valer-se de suas fragilidades e vulnerabilidade com objetivos egoístas... Aquelas a quem mulheres, representantes do sexo feminino, por inveja ou outros motivos, acabaram induzindo ao erro ou causando dor e sofrimento...

Age em favor das mulheres da Sua igreja... Aquelas que saíram dela, por perseguição ou outros motivos, e conheceram a frieza e malignidade do mundo... Aquelas que estiveram tão longe, mas tão longe, que só a Tua mão e o Teu braço infinito, puderam alcançar... Aquelas que caíram nas armadilhas do inimigo... Aquelas que estiveram muito longe do Sol da justiça e conheceram as trevas da noite profunda e tenebrosa... Aquelas a quem o inimigo enlaçou com suas mentiras e prazeres, e nelas tentou criar raízes... Aquelas que foram a ovelha perdida e que berrando tão alto, mas tão alto, ficaram sem voz... Mas que o Teu Amor alcançou e ainda pode alcançar...

Age em favor das mulheres da Sua igreja... Aquelas que trabalham fora e por estarem expostas no ambiente de trabalho, sofreram assédios de chefes, superiores ou colegas... Aquelas que sofreram assédios sexuais ou morais, os quais fizeram com que sua vida pessoal e profissional fossem negativamente afetadas... Aquelas que foram objeto de intolerância, falsidades, fofoca, opressão, invasões ou traições... Aquelas que foram ridicularizadas e passaram por bulling, só por ser diferentes... Aquelas que foram objeto de más intenções por parte de maus colegas e que desenvolveram doenças diversas e precisaram se afastar do trabalho por esta ou demais razões...

Age em favor das mulheres da Sua igreja... Aquelas que são objeto de incompreensão por parte de pessoas da vizinhança e da sociedade... Aquelas que foram e são provocadas por pessoas que não Te conhecem... Que não sabem de suas histórias, de suas dores e sofrimentos, e das cruzes que carregam...

Age em favor das mulheres da Sua igreja... Aquelas a quem os amigos abandonaram e que são vítimas de solidão há muito tempo; meses ou anos... Aquelas a quem os amigos não conseguiram compreender, por não as alcançarem no seu íntimo e em seus problemas mais profundos... Aquelas a quem a mão amiga não alcançou, não apertou, não abraçou ou não ajudou...

Age em favor das mulheres da Sua igreja... Aquelas a quem o irmão ou a irmã, do próprio sangue, esqueceram... Aquelas a quem esse irmão ou irmã, não compreende, apesar do próprio ninho... Aquelas a quem esse irmão ou irmã odeia... Aquelas a quem esse irmão ou irmã, não ama de verdade...

Pai... Sê o pai, a mãe, o irmão e a irmã dessas mulheres... Sê o marido e o namorado... Sê o pastor e o líder... O ancião e a anciã... Sê o jovem, ou velho amigo, ou amiga... Sê o chefe e o colega... Sê o vizinho e a vizinha... Seja tudo o que elas precisam...

Seja o Amor dessas mulheres...


Rosely T. Sales

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Chimamanda Ngozi Adichie: Não silencie essa voz


Escrevam programas de televisão onde a força das mulheres não sejam descrita como excepcional, mas como normal. Ensinem seus alunos a verem que a vulnerabilidade é humana e não feminina. Escrevam artigos em revistas que ensinem os homens a como manter as mulheres felizes, pois já temos artigos demais ensinando mulheres a manter os homens felizes.
Em entrevistas na mídia não esqueçam de perguntar aos homens como eles equilibram família e carreira. Nessa ideia de maternidade/paternidade como culpa, por favor dividam a culpa igualmente. Façam os pais se sentirem tão mal quanto as mães. Façam os pais compartilharem a glória da culpa. Façam campanha e mobilizem-se pela licença paternidade em todo país.
Contratem mais mulheres onde houver poucas. Mas lembrem-se que as mulheres que você contratar não precisam ser especialmente competentes. Como a maioria dos homens que são contratados, elas só precisam ser suficientemente competentes.
Recentemente, uma organização feminista gentilmente me nomeou para um prêmio importante, num país que vai continuar anônimo. Eu fiquei muito contente. Tenho tido muita sorte ao receber alguns prêmios até agora e gosto deles, especialmente os que vem com presentes brilhantes. Para receber esse prêmio eu deveria falar sobre o quão importante uma determinada escritora feminista européia tinha sido para mim. Mas a verdade é que eu nunca consegui terminar de ler o livro dela. O livro dela não falou comigo. Teria sido uma mentira dizer que ela teve qualquer influência no meu modo de pensar. A verdade é que eu aprendi muito mais sobre feminismo olhando as mulheres negociando no mercado perto de onde eu morava quando criança do que lendo qualquer texto feminista acadêmico. Eu poderia dizer que essa mulher foi muito importante para mim. Eu poderia ter feito o discurso, recebido o prêmio e um presente brilhante. Mas não o fiz. Porque eu comecei a me perguntar o que realmente significa usar esse rótulo de feminista publicamente.
Assim como também me perguntei isso após alguns trechos do meu discurso sobre feminismo ser usado na música de uma cantora talentosa que vocês devem conhecer. Eu achei que tinha sido uma coisa muito boa que a palavra feminista estava sendo apresentada para uma nova geração, mas fiquei assustada com a quantidade de pessoas — muitas delas feministas acadêmicas — terem visto algo de problemático ou mesmo ameaçador nisso. Foi como se o feminismo devesse ser um culto elitizado com direitos autorais e filiação. Mas não deveria. Feminismo deveria ser um partido/festa inclusiva. Feminismo deveria ser um partido/festa cheio de diferentes feminismos. Então, Turma de 2015, por favor, vão lá fora fazer do feminismo um partido/festa barulhento e inclusivo.
As últimas 3 semanas foram as mais emocionalmente difíceis da minha vida. Meu pai tem 83 anos. Ele é um professor de estatística aposentado. Um homem simples, adorável e gentil. Eu sou absolutamente a xodó do papai. Há 3 semanas atrás, meu pai foi sequestrado perto de sua casa na Nigéria. E por alguns dias, eu e minha família vivemos um tipo de dor emocional que nunca tinha conhecido antes. Nós estávamos falando com estranhos ameaçadores no telefone, pedindo e negociando a segurança de meu pai, sem ter realmente certeza se ele estava vivo. Ele foi solto após o pagamento do resgate. Ele está bem. Ele está saudável e do seu jeito amoroso ele nos reafirma que sim, ele está bem.
Eu ainda não consigo dormir bem. Ainda acordo muitas vezes a noite, em pânico, preocupada que alguma coisa não esteja bem. Ainda não consigo olhar para meu pai sem lutar contra as lágrimas, sem sentir esse profundo alívio e gratidão que ele esteja a salvo, mas também sinto raiva que ele tenha passado por essa indignidade ao seu corpo e seu espírito. Essa experiencia me fez repensar muitas coisas. O que realmente importa ou não importa. O que eu valorizo ou não. E vendo vocês se formando hoje, eu insisto que vocês reflitam sobre isso um pouco mais. Pensem sobre o que importa para vocês. Pensem sobre o que vocês desejam que seja importante para vocês.
Eu li sobre essa adorável tradição que vocês tem aqui de chamar as alunas mais antigas de “irmãs mais velhas” e as alunas novas de “irmãzinhas”. Também li sobre a estranha tradição de ser jogada numa lagoa — eu não entendi essa —. mas de qualquer forma, gostaria muito de hoje ser a sua irmã mais velha honorária. O que significa que gostaria de lhes dar alguns conselhos como uma irmã mais velha faria.
No mundo inteiro, as meninas são ensinadas a serem agradáveis, a se moldarem em formas que agradem outras pessoas. Por favor, não se modifiquem para agradar outras pessoas. Não façam isso. Se alguém gosta dessa versão sua que é falsa e te diminui, essas pessoas gostam de uma forma vazia e não de você. E o mundo é tão gloriosamente vasto, multifacetado e diverso que certamente existem pessoas no mundo que vão gostar de você como você é.
Eu tenho sorte que minha escrita me deu esse espaço que eu escolhi usar para falar sobre as coisas que são importantes para mim. E eu já disse coisas que não são bem vistas por algumas pessoas. Já me mandaram ficar de boca fechada sobre algumas coisas, como minha posição sobre os direitos dos homossexuais no continente africano, ou sobre a minha crença na absoluta igualdade entre homens e mulheres. Eu não falo para provocar. Eu falo porque penso que o nosso tempo na Terra é muito curto e cada momento que não estamos sendo verdadeiros conosco, cada momento que fingimos ser o que não somos, cada momento que dizemos o que não acreditamos mas sim algo que imaginamos ser o querem que falemos, estamos perdendo tempo na Terra. Não quero soar esnobe, mas não percam seu tempo na Terra. Com apenas uma exceção. O único jeito aceitável de perder o seu tempo é comprando na internet.
Uma última coisa sobre minha mãe. Eu e minha mãe discordamos sobre muitas coisas quando o assunto é gênero. Existem algumas coisas que minha mãe acredita que uma pessoa deve fazer apenas “por ser mulher”. Como ocasionalmente acenar e sorrir, mesmo que sorrir seja a última coisa que se queira fazer. Como estrategicamente deixar de argumentar apenas porque a outra pessoa com quem se está discutindo não é uma mulher. Como casar e ter filhos. Eu penso que tudo isso pode ser feito por algumas boas razões, mas “porque você é uma mulher” não é uma delas. Então, Turma de 2015, nunca aceitem o “porque você é uma mulher” como uma razão para fazerem ou deixarem de fazer alguma coisa.
E, finalmente, eu gostaria de terminar esse discurso com uma menção especial sobre a coisa mais importante do mundo: amor. Atualmente, as garotas são frequentemente criadas para entenderem o amor apenas como doação. As mulheres se sentem realizadas com seu amor quando esse amor é um ato de doação. Mas amar é dar e também receber. Por favor, amem dando e recebendo. Dar e receber. Se você está apenas dando, sem receber, você saberá. Você sabe por meio daquela voz pequena e verdadeira que está dentro de você e que nós mulheres tão comumente somos ensinadas a calar. Não silencie essa voz. Ousem dizê-la. Parabéns!
Autora
Chimamanda Ngozi Adichie é autora de diversos livros, entre eles: Hibisco Roxo, Meio Sol Amarelo e Americanah. Já ganhou inúmeros prêmios literários, tendo seu trabalho traduzido para mais de 30 línguas. Atualmente, ela divide seu tempo entre os Estados Unidos e a Nigéria.